Começou a profecia ...

Hoje o governo chinês anunciou uma maior flexibilização do yuan, segundo eles não há motivos para uma apreciação "abrupta" da moeda.

Decidi por fazer este post, depois de algum tempo, pois na profecia do meu primeiro post este seria o primeiro passo para o início do ciclo de causas e efeitos que levariam ao desastre da dívida pública americana.

Primeiramente, duvido muito que os chineses tenham cedido a qualquer tipo de pressão ou discurso dos EUA, acho que foi uma mera decisão de controle inflacionário como manda a basica teoria economica. A china é uma forte importadora de commodities que vem subindo de preço nos últimos tempos pressionando diversos preços na china, como por exemplo os materiais de construção. A apreciação do Yuan tem o efeito de baratear estas importações e manter o poder de compra da moeda.

Pois bem, o que tem haver os EUA com isso. A valorização do Yuan em relação ao dólar americano da uma maior competitividade dos produtos americanos em relação aos chineses, os primeiros se barateiam em relação ao segundo. Vejo nisso um bom sinal, a curto prazo, para a economia americana que deve sentir uma sensível melhora no seu nível de atividade. Contudo, não devemos esquecer da incrível impressão de moeda e incrível aumento do endividamento americano no pós-crise sob o pretexto de "salvar a nação de uma grande depressão". Claramente são seguidores de Keynes ou pós-keynesianos que acreditam em baboseiras como o paradoxo da poupança ou armadilha de liquidez e, assim, imprimir papel e endividar o país resolveriam tudo.

Com esse imenso montante de dólares criados, por que não vimos inflação nos EUA ainda? Por alguns simples motivos, esse dinheiro não entrou em circulação, ele se encontra paradinho nas contas que os bancos tem no BC bem acima do nível compulsório que estes são requeridos. Parece-me que após o baque de 2008, estes estão em um processo de desalavancagem e, assim, não emprestam esse dinheiro sob risco de ficarem descapitalizados.

Quanto a crescente dívida americana, acredito que ela é uma bomba relógio para a inflação. Nas atuais circunstâncias de aversão ao risco, os investidores ainda migram para os treasuries permitindo ao governo americano manter este alto nível de dívida a juros baixos, além disso tinhamos a China com sua moeda fixa comprando títulos americanos.

O que muda? A china ao flexibilizar e permitir a apreciação de sua moeda não tem mais a necessidade de adquirir títulos americanos, podendo inclusive diminuir a exposição de suas reservas aos títulos americanos.

Como a recuperação, de curto prazo, da economia americana se transformará em um colapso da dívida pública? Uma diminuição das reservas em dólar chinesas dificultaria a rolagem da dívida americana, pressionando por juros maiores. Além disso, a retomada da atividade econômica americana pode aumentar os níveis de confiança pressionando os bancos a liberarem o dinheiro retido no BC para entrar na economia sob forma de crédito. O forte aumento no crédito e maior nível de atividade devem vir a pressionar o nível de preços, forçando o BC a elevar os juros. O aumento dos juros americanos gerará encargos cada vez maiores e mais insustentáveis levando o governo a tomar a drastica decisão dentre três opções nada bonitas: i) Medidas de austeridade fiscal; ii) Calote (ou "renegociação" como os mais formais preferem chamar); iii) Monetização (com inflação correndo solta e a população pagando a conta em perda de poder de compra). Qualquer uma dessas três opções deve gerar insegurança e pânico nos mercados.

Quanto a Europa, tenho lido que diversos pacotes de contenção fiscal vem sendo aprovados em diversos países. Além disso, medidas como a flexibilização do mercado de trabalho na Espanha devem ajudar o desemprego a cair e a economia recuperar competitividade com a redução dos salários. Minha única dúvida é técnica, como não tenho acompanhado em detalhes os dados de cada país, não sei se as medidas serão suficientes para evitar uma renegociação da dívida futura, mas certamente o posicionamento parece estar na direção certa. Além disso, imagino que a nova política da china deva diversisificar suas reservas concentradas em dólares, euros e yens para commodities, isto pode gerar pressão de juros sobre as dívidas dos países da zona do euro o que complica ainda mais a endividada situação destes países, assim ainda existe a possibilidade de um default soberano na europa.

Quanto ao Japão, continuo achando que a questão demográfica juntamente como os estímulos pós-crise devem pressionar a um problema similar ao americano. Dificuldade na rolagem da dívida pública. Nos dois casos, a desalavancagem do setor bancário e privado acaba sendo migrada para o setor público.

Quanto ao Brasil, estamos com um nível muito mais aceitável de dívida e déficit. Contudo não vejo um crescimento mais acelerado se não tomarmos certas medidas estruturais que aumentem as taxas de investimento do país. Por ironia, no mesmo dia em que a grécia via uma violenta manifestação da população em oposição as medidas austeras aprovadas pelo governo, a câmara (ou o senado, não me lembro) havia aprovado o reajuste e fim do fator previdenciário aos aposentados. Mais uma vez por não conhecer os dados das contas públicas em detalhes não sei o quão impactante é a decisão, mas claramente não é uma medida no sentido de aumentar os investimentos ou de garantir a responsabilidade fiscal. Temos um estado muito grande, ineficiente e intervencionista na economia, uma estrutura de sociedade que vem dando cada vez mais poder a sindicatos. Esses fatores me levam a crer que o Brasil tende a perder competitividade se essas políticas continuarem. O pré-sal, em especial, deve acobertar esta perda de competitividade. Afinal mesmo sendo um puta imbecil improdutivo, qualquer um se sente (e fica) mais rico ao encontrar grande riqueza em petróleo.

Comentários

  1. Ale, o post ta muito bom e sua idéia bastante clara.

    MAs estou achando sua opinião um pouco radical, pois em primeiro lugar, apesar da flexibilização do yuan, para controle inflacionário, pois é insustentavel a China ficar com o câmbio artificialmente bastante desvalorizado por um periodo longo, não há qualquer sinal claro e explícito de que ela irá se desfazer ou parar de comprar os titulos americanos, ou que o impacto dessa apreciação seja tão forte para a partir disso desencadear seus argumentos apresentados.
    Um outro aspecto é o seguinte: apesar de parecer contraditório, duvido muito que os EUA tenham dificuldades de rolar sua dívida, pois apesar de todo seu endividamento e aumento do risco de seus títulos, os titulos americanos por algum motivo ainda são e continuarão sendo por um bom tempo considerados o "porto seguro". Entretanto o que eu vejo de mais ameaçador é como que eles irão fazer na hora que os bancos começarem a emprestar o dinheiro parado em forma de compulsório no FED, exigindo um aumento dos juros para enxugar a base monetária, o que ocorrerá mais cedo ou mais tarde independente se os produtos americannos ganhem competitividade devido a apreciação chinesa.

    Entretanto o aspecto mais relevante que vejo na China é a questão da bolha imobiliaria que esta se formando por lá. Dependendo de como ela estourar, ai sim vejo que pode causar grandes impactos. Uma possivel conjuntura seria que o governo seria forçado a abaixar os juros e voltar a desvalorizar a moeda e talvez dependendo da situação vender os titulos americanos para haver um fluxo de reservas para o país.

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  2. Só para completar...... o estouro da bolha na China, aumentaria a aversão ao risco mundial, o que mais uma vez beneficiaria a rolagem da divida dos EUA, pois mais uma vez os fluxos de capitais migrariam para o porto seguro!

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